segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Amar é partilhar do drama coletivo da humanidade




Numa sociedade onde o senso de egoísmo é apurado pela propaganda massificadora, que incita a competição de mercado, está se esvaindo a noção de que somos uma raça comum e que partilhamos uma mesma história, de mútua dependência .

O olhar lançado em direção do outro é um olhar predatório ; O que é que eu ganho ou perco me aproximando daquela pessoa? As relações são de interesse econômico. As amizades são virtuais e a morte do semelhante um fato banal.

Nesse contexto, de absoluto individualismo e desamor ao semelhante, a ética cristã se apresenta como única saída possível  para uma prática comunitária de respeito e compaixão aos que se ligam pela gênese comum dos homens.
Referenciados em Jesus percebemos que uma das suas grandes lições foi chamar doze homens de matizes diversos - alguns com caráter e comprometimentos  duvidosos, indicando que progredir como humanos só é possível  se nos relacionarmos e nos amarmos como iguais, mesmo quando tão diferentes. Homens com os quais ele gostava de estar junto, desejando com eles comer a sua última refeição. Homens com os quais dividiu seu projeto de vida; o Reino de Deus, identificando-se com eles de tal maneira que mesmo sendo seu mestre preferiu chamá-los de amigos. Homens tão intimos, aos quais, no Getsêmani, na  derradeira hora da vida,   pediu  a companhia.

Talvez por partilhar os dramas e se identificar de forma tão profunda com a raça humana ele chora a morte  de Lázaro, sentindo a perda do amigo, seu semelhante. Por isso eternamente se compadece dos que são esmagados pela dureza da vida, pois ainda chora com os que choram.
A noção de comum-unidade e dependência é o que move e faz viver a igreja. Antes de ir para o Pai, Jesus disse aos amigos: "Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros" (Jo 13.34-35)
 Amar o outro conforme Jesus nos amou é colocar este outro como centro do nosso cuidado, reconhecendo que ninguém resiste aos baques da vida sozinho, ninguém existe sozinho, e que antes de buscar o meu benefício próprio tenho que me lançar na direção do outro e sanar suas necessiades.

No século XVII, doente, à beira da morte, o poeta e pregador inglês  John Donne, ao ouvir as badaladas insessantes dos sinos da igreja que anunciavam a todo instante a morte de mais um vítima da peste negra, escreveu versos maravilhosos, como quem percebeu que aquele drama que assolava a Europa era o drama coletivo de toda a humanidade.

"Nenhum ser humano é uma ilha. Se um punhado de terra é levado pelo mar, a Europa fica menor (...) A morte de qualquer homem rebaixa-me, pois estou envolvido com a raça humana, e, portanto, nunca procures saber por quem os sinos dobram; eles dobram por ti" (Meditações).

O drama coletivo da raça humana é o meu drama particular.

Reconhecer que a vida do outro me diz respeito é humanizar-me, é partilhar o mesmo sentimento do Deus que tanto amou  o mundo, que por ele se humanizou. Humanizar é  tornar-me aliado do Deus que não age pela meritocracia; do Deus que  faz nascer o sol  e faz chover a chuva sobre justos e injustos; que não faz acepção de pessoas. Ele mesmo, que  quer a vida eterna para todos,  para que onde Ele estiver, estejam  todos também.


Alex Carrari e Paulo Silvano

4 comentários:

Erick Chiaramonte disse...

Alex e Paulo Silvano,

Como disse Um grande Teólogo que respeito muito cujo nome vocês conhecem muito bem: Dom Helder Camara. Ele, como profeta das injustiças disse: "E se amanhã, as massas tiverem a impressão de que o Cristianismo teve medo, que não teve coragem de dizer a verdade, de mostrar a verdade, então, acabou-se o Cristianismo" - Ele continua ainda - "Não pensem que Deus ajuda a miséria. Deus não aprova as injustiças. As injustiças são um problema nosso.
Parabéns pelo texto, pois precisamos ser profetas e denunciar as injustiças desse mundo.

Marcio Alves disse...

Deus se revela no outro, pois Deus-mesmo está dentro de nós-mesmos, assim sendo, quando morrem alguém, não somente morremos nele, mas morre Deus em nós, pois é Deus-mesmo nele e em nós.


Daí Jesus ter dito o que disse dizendo que: Quando fizermos a um destes pequeninos a Ele nos fizemos, mas em contrapartida, quando matamos o outro, deixando-o de socorrê-lo, seja na morte-morte, ou morte das variadas maneiras, deixamos de fazer para Ele.


Ou seja, Deus é visto no outro que sofre, pois sendo assim, Deus esta morrendo todos os dias, sendo estuprado, roubado, discriminado, rejeitado, passando fome, frio e sede.


O clamor de Deus clama por Deus.
Deus sofre a dor humana se compadecendo de nós, mas não somente isto, Ele ajuda Ele mesmo sendo em nós o pedido de socorro, como a resposta a este socorro!


Deus não usa o seu poder, pois se não, nos esmagaria.
Ele prefere o esvaziamento da interpelação, nos chamando e desafiando a mudar o mundo, encarnando Ele mesmo em nós mesmo, sendo suas mãos, seus pés, seus braços, seus pés, suas bocas e suas vidas!


Deus nos confiou o mundo em nossas mãos, é nossa responsabilidade cooperar com Deus, para botar ordem no caos.


Deus não se ausenta sendo indiferente ao clamor do mundo, como também, não interfere com o seu poder, pois ai, não teríamos liberdade de si ser o que somos sendo e fazendo.


Quando me pergunta, porque Deus não acaba logo com o mal, eu respondo que, para Ele acabar com o mal, precisaria acabar com os malvados, pois o mal como entidade não existe, o que existe são os malvados que fazem mal, pois o mal, é a liberdade de escolher, e não o direito de fazer.


Então Deus que não se ausenta da humanidade, vem e vive a nossa vida, chora o nosso choro, sente a nossa dor, se entristece com nossas tristezas, se alegra com nossas alegrias, sofre o nosso sofrimento e morre a nossa morte!


Deus se deixa violentar pela violência humana, mas graciosamente não responde com o mal, mas responde com a vida, ressuscitando Jesus!


A encarnação de Jesus é a prova do amor de Deus pela humanidade, sua morte é a prova da maldade humana e a sua ressurreição é a resposta a esta maldade!


Abraços e bela reflexão!

Missionária Bella Dourado disse...

Muito interessante e instrutiva a reflexão. Escrevi anteriormente um comentário mas estou com problema de conexão por isto serei breve " Continuem pelo caminho do bem divulgando o amor de Jesus que além das pedras e do lixo pelo caminho humano também encotrarão a pureza das crianças e até mesmo uma flor de lotus de beleza e perfume singular"
Que Deus os abençoe

Paulo Mendes Faria disse...

Alguem saberia me explicar ...acho que não .... enfim vou perguntar assim mesmo : por que hoje em 2010 existem muito mais igrejas e religiosos do que existia em 1900 ou 1950 , ou em 2000 e a violÊncia , a desumanidade ,a corrupção , a luta pelo poder , a escravidão dos trabalhadores continua existindo e aumentando a olhos nús ?!?!?!?!? POR que????????